Você acordou e, ao olhar no espelho, percebe que está invisível



Foto: Mademoiselle Loves Books


Ela sabia que era difícil, apenas ela entendia como aquilo doía. Amizades falsas, as que se afastam as que estão quando você precisa, não estão lá.
Mas ela sabia, porque doía.

E ninguém mais irá entender o quanto é difícil ser invisível, não ser aceita, ser dilacerada por dentro com palavras cruéis, por isso ela estava invisível. Acordou numa segunda feira sem disposição para enfrentar o mundo, arrastou seus pés para o banheiro e ao se olhar no espelho, percebeu que aquela garota alegre já não existia, estava invisível.

Tomou um banho curto, penteou seu cabelo e chorou, chorou baixinho para ninguém escutar, para não ter quer dar explicação, respirou fundo e disse para si mesma que a noite logo chegaria e então poderia voltar para a cama.
Já não sabia o que estava mais bagunçada, sua vida, seu coração, sua família ou sua alma. Todo tem problemas, certo? Mas porque ela deveria continuar ajudando aos outros se ninguém se interessava a ajuda-la?  

Doía muito, havia momentos que queria apenas chorar e ficar na cama, na sua mente, todos a odiavam. Depressão e ansiedade eram suas companheiras mais fiéis, mas não as mais divertidas.  O mundo desaba para todos, ninguém é forte o tempo todo, algumas pessoas se sentem vazias, por que é assim?
As coisas a sua volta lhe davam medo, viver era arrepiante, pensamentos acelerados lhe davam dor de cabeça, mas o que podia fazer?

- Oh menina, chora, chora mesmo, pois é a única que vai sentir essa dor – Era o que sua mente dizia

- Um dia as coisas irão melhorar, não desanime – Dizia seu coração.

-Não há motivos pra você ficar assim, isso é besteira, porque chora tanto? – Diziam as pessoas

Eu só peço pra ficar bem, devia sorrir mais, viver mais, por que é tão difícil?  Dizia ela para si mesma

Seu reflexo era o retrato da solidão. Ela já não sabia qual era seu destino, seu caminho, tudo o que já fizera eram planos de outros e não havia amor naquilo que fazia.

Seu reflexo no espelho, não tinha nome, não tinha idade, não tinha destino, não existia.



Dos processos da escrita


Escrever é um processo solitário.
olho pra mim mesmo com aspereza e tiro o que de pior há sobre a maneira
como permito escorrer,
nas relações afetivas ou amorosas,
no cotidiano brusco e na queda fatal.
Debruçar-se nos fatos, tarde da noite, virou rotina.
Já não durmo como antes, não sei se algum dia dormi.
não lembro da paz invadindo meus brônquios.
Semana passada outra crise de ansiedade deitou nos meus ombros. choro
copiosamente por pessoas que nem existem, porque eu as inventei no meu
imaginário social.
Escrever, ainda que sobre alguém,
é o processo mais doloroso que existe.
A cabeça pesa e flutua.
às vezes não tem força divina que te resgate
e você ainda acha que é salvação estraçalhar a goela gritando pra dentro uma
solidão que é sua
mas faz os outros tentarem — e só tentarem — te compreender.
escrever é o ato, no entanto, mais corajoso que existe. você coloca uma
arma contra a própria cabeça e às vezes dispara. a arma pode ser sua
própria desesperança nas coisas. a fé ruindo feito qualquer prédio antigo
do centro da cidade.
A saudade de alguém que nunca esteve. e mesmo assim você escreve
porque é o que te parece mais natural e inviolável, afinal, ninguém
colocaria todos os edemas nas folhas
de papel como você.
Olho pra mim tentando não capturar os centímetros da sua pele que ficou no
sofá.
O fogo da solidão começa a arder as pernas, ombros, por fim o peito.
contenho-me pra não parecer desesperado ou ansioso.
falho na minha própria fuga de adulterar memórias pra que eu não consiga
senti-las, mas eu ainda sinto os olhos arderem, a respiração tremular, o oco
do mundo me atravessando a nuca, a solidez.
Que escrever é como despir a parte mais honesta
e frágil de si próprio pra que os outros, com a frieza de dois ursos, comecem
a interpretar
o ser humano.
Será que sou?
às vezes não tem força divina que me resgate.



Livro: Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente -


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